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Turistas chegam a 4.000 ao ano no Divisor, a maior biodiversidade do mundo no extremo-oeste do Acre

Com uma área de mais de 8 mil quilômetros quadrados no estado do Acre, o Parque Nacional da Serra do Divisor, localizado no Vale do Juruá, é um gigantesco palco de belezas naturais imensuráveis e uma das maiores biodiversidades do mundo.

Sendo o quarto maior parque nacional do Brasil, a unidade de conservação é gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e conta com diversas ações do governo do Acre, principalmente em apoio ao turismo de base comunitária, que tem crescido e se destacado na localidade.

A região vem ganhando cada vez mais destaque e, segundo dados da Secretaria de Estado de Empreendedorismo e Turismo (Sete), a Serra do Divisor já recebe cerca de 4 mil visitantes por ano.

Com o apoio do governo do estado do Acre, três pousadas já surgiram na área, trazendo não apenas a oportunidade de experiências autênticas para os visitantes, mas também uma transformação significativa na vida das 97 famílias que habitam o parque. Essas pessoas passaram a enxergar a preservação ambiental como uma forma de crescimento pessoal e, principalmente, como um meio de desenvolvimento regional.

Além disso, por meio do governo do Acre, através da Sete e de projetos como o Programa REDD Early Movers (REM Acre) Fase II, já foram realizadas diversas melhorias e cursos profissionalizantes no polo turístico da região. O futuro reserva, ainda, a elaboração de projetos de adequação das cozinhas dos empreendimentos e outras propostas, de acordo com as necessidades da comunidade.

Assim, para todos aqueles que planejam conhecer a Serra do Divisor e ter uma experiência ecológica única, conhecer as pousadas disponíveis na região é uma excelente maneira de definir seu roteiro turístico.

Caminho das Cachoeiras
Do porto de Mâncio Lima até a Serra do Divisor, são pelo menos sete horas de barco. No entanto, para um apreciador da natureza, dificilmente o deslocamento será entediante. Pelos rios Japiim e Moa, ao longo de suas inúmeras curvas, o caminho é repleto de toda a beleza da floresta, com pássaros das mais diversas espécies, além da chance de ver jacarés, capivaras, porcos do mato e, quem sabe, até uma onça bebendo água.

Ao se aproximar da Serra, próximo aos seus pés, antes de poder desfrutar de todos os pontos turísticos já famosos, como as oito exuberantes cachoeiras catalogadas, o Buraco da Central, trilhas, o mirante no topo e espécies de fauna e flora únicas na região, a primeira pousada a surgir no caminho, logo após o povoado de São Vicente, é o Caminho das Cachoeiras.

A propriedade pertence a Eva Maria da Silva, uma animada empreendedora de 44 anos, que comanda o lugar ao lado de seus filhos e marido, destacando-se como uma joia da hospitalidade. Na pousada, a regra número um é fazer com que o visitante se sinta bem, pois eles podem acomodar confortavelmente até 25 pessoas, oferecendo chalés simples e alguns de luxo, com sacada e banheiro privativo.

Orgulhosa de suas conquistas e do que conseguiu proporcionar para a comunidade, Eva compartilha a história de como seu sonho se tornou realidade após receber o empreendimento como presente. Ela também ressalta a importância das parcerias com a comunidade e o apoio do governo, que forneceram desde equipamentos de segurança para trilhas até cursos de capacitação em gastronomia.

“Antes disso, minha vida era a agricultura; criei meus filhos na agricultura, plantava roça e milho, mas mudei. Eu acredito que moramos no paraíso e sou muito feliz porque moro aqui. Estou com a pousada há um ano e quatro meses e sou pequena, mas minha felicidade é maior do que eu. Tem problemas? Claro que tem, mas eu passo por cima”, conta, rindo até mesmo da última viagem da cidade para a Serra, quando o barco virou e ela teve que recuperar todos os mantimentos que ficaram flutuando na beira do rio. “Fiquei triste porque perdi R$ 600 em dinheiro, mas a gente recupera”, continua rindo.

Eva acredita que o turismo não apenas enriquece sua vida, mas também fortalece as conexões comunitárias e estimula a preservação da região.

“A gente trabalha em um negócio desses e temos tanto quanto ajudamos as pessoas. A gente chama, compra coisas, pede um serviço, investe, e é assim que funciona aqui dentro da comunidade. Eles nos ajudam e a gente ajuda eles. Tem os guias, os condutores, a gente não trabalha só em família. O turismo está crescendo a cada dia mais. Eu fiquei muito encantada com o que estamos vendo hoje e o que ainda está por vir, porque a tendência é só crescer”, reforça a empreendedora.

Canindé da Serra
Os caminhos que a Serra do Divisor começou a percorrer no turismo de base comunitária já têm alguns anos. Por isso, foi inevitável que o processo fosse interrompido e até mesmo ameaçado pela pandemia de covid-19.

Para Antônia Gracilandia de Lima, à frente da Pousada Canindé da Serra, seus sonhos, infelizmente, colidiram com esse triste episódio mundial, ao iniciar o projeto ao lado do marido, a pessoa que mais acreditou na ideia, e que acabou se tornando o único caso fatal pela síndrome respiratória na comunidade.

Em sua trajetória de vida, depois de se conhecerem e casarem, Antônia se mudou com o marido para a região aos 18 anos. Moravam mais para dentro da Serra, próximos de uma das cachoeiras. Viviam da agricultura, principalmente de frutas.

Quando o Parque Nacional foi criado, precisaram se mudar para uma nova propriedade, que viria a ser a mais próxima das três pousadas ao pé da Serra do Divisor.

“Aí vinha muita gente para a nossa casa, que sempre foi muito grande. Então começaram a nos incentivar a montar uma pousada e cobrar um valor. Tivemos apoio da S.O.S. Amazônia no começo e deu muito certo. Hoje eu consigo receber 20 pessoas confortavelmente, tanto dentro da casa quanto nos chalés”, conta a senhora.

Antônia seguiu com o sonho que compartilhava com o marido, mas seis meses após o falecimento dele, ela se sentiu mal, fez exames e descobriu um câncer de colo de útero. Foi outro baque, mas ela nunca abaixou a cabeça.

“Batalhei, fui para Rio Branco às pressas, fiz cirurgia, quimioterapia, radioterapia, braquiterapia, e graças a Deus estou aqui contando a história. Tenho fé em Deus que vou viver muito e ver isso aqui crescer cada vez mais. Quero fazer mais casas, dormitórios, me organizar direitinho, arrumar tudo ainda mais. Ficamos felizes em receber as pessoas e elas ficam felizes de estarem aqui. Fazemos o possível para dar o nosso melhor”, reforça, olhando serenamente para o belo espaço de redário que fez em homenagem ao marido, cujo maior sonho era ver a pousada crescer.
Antônia ainda destaca o apoio de instituições e a capacitação que recebeu do governo, o que permitiu o crescimento do empreendimento. Ela reforça a importância do turismo em sua vida e para toda a comunidade da serra, trazendo renda e um sentimento de união por um projeto em comum.

Miro
Figura quase folclórica da região, Agimiro Magalhães, conhecido como Miro, é um nativo da Serra do Divisor e um dos pioneiros no turismo local. Ele relembra como seu conhecimento sobre a região e a natureza o levaram a se tornar um guia para pesquisadores.
“Sempre fui daqui, nasci aqui, trabalhava na roça, até que começaram as primeiras pesquisas dentro do parque e, como moro aqui no pé da Serra, os pesquisadores vinham bater aqui sem endereço nem nada, só chegavam. Como eu conhecia bem a mata e sabia andar por aqui, comecei a guiá-los. E foi vindo cada vez mais gente. Então eles deram a ideia de eu fazer um lugar para receber as pessoas na minha casa. Tudo isso em uma época em que não existia a palavra turismo aqui, tudo a gente chamava de passeio”, relembra.

A experiência o incentivou a abrir a Pousada do Miro, hoje a maior da região, com capacidade para receber confortavelmente até 36 pessoas, entre quartos e chalés. Miro destaca sua dedicação ao trabalho e à preservação ambiental, mantendo viva a essência do turismo de base comunitária. Ele trabalha com a família e gente da comunidade, como os barqueiros, mas sempre está comprando farinha, inhame, porco, galinha caipira e tantos outros produtos de toda a comunidade, principalmente quando a pousada está cheia.

“Eu já tiro meu sustento completo daqui, mas para muita gente ainda é um complemento. Isso aqui está crescendo. A gente segue preservando. O desmatamento não chega aqui. Quero continuar nisso até quando puder, e que a família toque, a comunidade toque. Este é um serviço muito importante, foi a coisa mais legal que eu fiz na minha vida. Às vezes é exaustivo, mas é muito gratificante”, conta de forma tímida sob a grande tenda de palha onde serve as três refeições do pacote para os hóspedes.

Miro destaca que a Serra é um local onde há muito a se descobrir. Já foram encontradas três cavernas, embora elas sejam arenosas, o que pode representar um perigo, por isso a não exploração turística. Atualmente, a busca é pelo que parece ser um grande lago no interior da floresta que dizem ter sido observado por satélite.

Aparentando ser tímido, mas bastante brincalhão, Miro ainda trabalha com o marketing da pousada nas redes sociais. “Uma vez o movimento estava fraco, então fiz um vídeo para o Instagram, contando a história do meu encontro com o Mapinguari, quando eu era jovem, aqui na Serra. Imagino que agora, com mais de 40 anos, ele deve estar bem velhinho e todo peludo. As pessoas daqui não me deram moral, mas apareceu um monte de gente de fora”, conta entre risadas.

Sempre com a intenção de criar uma relação verdadeira com todos os seus hóspedes, Miro conta ainda que já recebeu turistas de diversos países, entre Estados Unidos, Alemanha, México, Canadá, Itália e outros.

“Acho que tenho o dom de trabalhar com as pessoas. Me dedico muito a esse trabalho e sinto que aqui conseguimos desenrolar tudo. Mesmo quando não sabemos falar a língua, fazemos acenos, vamos indo. Eles gostam, levamos onde querem ver os bichos, os passarinhos, as cachoeiras. O ano de 2022 foi muito bom para nosso trabalho aqui. Acredito que tudo só tende a melhorar”, relata.

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